Advocacia do futuro: como atuar no novo mercado jurídico

Duas coisas são muito importantes na advocacia do futuro. A primeira delas é entender o que acontece de evolução no ecossistema da Justiça. A outra é entender o que é inovação.

As pessoas estão muito habituadas a relacionar o ato de inovar com a transformação digital quando, na verdade, inovação e transformação são coisas muito diferentes. A inovação não depende, necessariamente, da tecnologia para acontecer. Qualquer mudança na rotina, feita com o objetivo de melhorar o dia a dia, é uma inovação posta em prática.

A questão é que para inovar, não basta ter somente o conhecimento jurídico. Existem outras áreas que são tão importantes quanto e que contribuem para desenhar o escritório de advocacia do futuro. Não fosse assim, não existiriam tantas maneiras, hoje, de resolver tudo em um clique, inclusive na advocacia. Para chegar a esse resultado, é preciso unificar o conhecimento individual de muitos profissionais, como os de advocacia. Caso contrário, o processo eletrônico não existiria e nem soluções para peticionar eletronicamente, de maneira unificada.

Com cada vez mais tecnologias, aplicativos softwares e afins surgindo para solucionar questões específicas da advocacia, como peticionar de forma mais ágil, um questionamento que surge é como isso impacta no escritório de advocacia? O crescimento exponencial da tecnologia pode dar um panorama geral para essa resposta.

Advocacia do futuro: impactos da inovação e da transformação

Um fato é que a estrutura dos escritórios de advocacia já não é mais ou mesmo, embora o ambiente físico ainda se pareça muito com o que existia anos atrás. Algumas das mudanças significativas são a adesão ao escritório digital, a diversificação das equipes, formadas por profissionais da área de estatística e tecnologia da informação, para citar alguns exemplos. Os litígios que, por muito tempo, foram o “carro-chefe” dos negócios jurídicos, já deixaram a posição central para abrir espaço para a prestação de novos serviços jurídicos.

Por essa simples análise, já dá para ter uma noção de como os tradicionalismos estão, aos poucos, sendo reestruturados para vivenciar a advocacia do futuro. Com isso, algumas oportunidades se abrem para atuação no novo mercado jurídico. Uma forma de mapear as opções é observar as transformações pela ótica dos 6Ds das tecnologias exponenciais:

1. Digitalização

Fica fácil entender o primeiro D olhando para a evolução dos processos. Antes, eles precisavam ser protocolados fisicamente e arquivados em pastas volumosas nas prateleiras dos Tribunais. Agora, todo processo pode ser enviado eletronicamente e armazenado nos servidores do Judiciário. Isso comprova o potencial que negócios digitais detêm e como é necessário adaptar-se a eles.

O digital tem um alcance quase imensurável se parar para pensar que, dependendo de onde está disponível a informação, ela pode ser acessada pelas pessoas de todo o mundo no tempo que leva uma busca na internet. Essa compreensão sobre a digitalização precisa estar muito clara para quem almeja atuar na advocacia do futuro.

2. Decepção

Já vivemos em um mundo digitalizado. Então, qualquer nova ideia pode sofrer a concorrência dos negócios tradicionais ou de outros negócios digitais. Ou seja, a estratégia planejada pode não surtir o efeito desejado logo no início da implementação. Esse é o momento da decepção. Entretanto, não significa que o planejamento não dará certo. Apenas, que pode ser necessário paciência até a ideia se disseminar e obter os primeiros resultados.

3. Disrupção

Disrupção é a palavra em alta. Tudo o que se fala sobre a advocacia do futuro e o novo cenário do mercado jurídico será disruptivo, segundo quem já atua na área. Mas, o que significa a disrupção de fato?

O maior exemplo é o da Kodak que, mesmo tendo desenvolvido uma câmera fotográfica digital, preferiu manter-se no estado vigente, sem se preocupar muito com a possibilidade de a nova tecnologia ser um negócio lucrativo e capaz de revolucionar o modo de fotografar.

Como isso poderia acontecer na advocacia? Um exemplo são os escritórios de advocacia que já investem em recursos para analisar os dados dos processos para determinar estratégias mais assertivas para os escritórios. Esses escritórios viram nisso uma possibilidade de romper com o modelo vigente de advocacia. Enquanto eles estão modificando a prática advocatícia e se tornando mais competitivos, os demais permanecem operando no mesmo modelo de anos atrás, conquistando sempre os mesmos resultados. Mediante esses dois cenários, qual parece mais eficaz?

4. Desmonetização

O melhor exemplo para explicar a desmonetização continua sendo o da Kodak. Originalmente, o caso é narrado no livro Bold, de Peter Diamandis. Resumidamente, ele conta que a partir do lançamento do iPhone e demais smartphones que foram desenvolvidos e postos à venda posteriormente, as pessoas puderam ter suas próprias câmeras digitais, na forma de aplicativo, nos novos modelos de telefones celulares. Ou seja, adquiriam dois produtos pelo preço de um, o que fazia o valor parecer relativamente menor, considerando o custo e o benefício.

A Kodak não teve força para resistir à digitalização e mesmo antes de o iPhone se tornar sensação, já havia encerrado as atividades no mercado fotográfico. Isso mostra a força da tecnologia para a democratização e o acesso à serviços de menor custo. Também, demonstra como é importante adaptar-se a ela e buscar diferenciar-se, tendo-a como suporte.

Enfim, para não acabar como a Kodak, escritórios de advocacia tem de se portar mais como Steve Jobs. Olhar a frente o mercado jurídico e ver as oportunidades de negócio para lançar ideias inovadoras e disruptivas. Ideias capazes de entregar um valor que nenhum outro negócio entrega no mercado jurídico, para, com isso, tirar o valor financeiro do “jogo”. Pode não parecer fácil, mas é possível.

5. Desmaterialização

Até aqui, usamos o exemplo da Kodak para mostrar como as tecnologias exponenciais atuam. Contudo, é possível ver isso acontecendo em outros mercados. Relógios despertadores, por exemplo. Há um número grande de pessoas que acordam todos os dias com o aplicativo de relógio que vem com o celular. É raro alguém acordar com rádios relógios tocando o som alto e desagradável na hora de acordar.

Essa é a desmaterialização que acontece no mundo das tecnologias digitais. Algo surge e torna o que estava instaurado anteriormente menos usual. Fitas cassetes quase não são mais encontradas, por exemplo, porque é possível ouvir música a partir de serviços de streaming de música há alguns anos, já. Os aplicativos são disponibilizados para download gratuito e o som pode ser compartilhado via bluetooth com caixas de som pequenas e potentes. O que também tornou desnecessário o uso de aparelhos de rádio.

É nesse cenário que escritórios de advocacia precisam ser criativos e inovar, para evitar tornarem-se aparelhos de rádio ou fitas cassete. A substituição total nunca irá ocorrer. No entanto, quando surgir uma nova opção no mercado jurídico da advocacia do futuro, as pessoas podem preferi-la, pela agilidade. Portanto, é preciso ser essa nova solução para não se desmaterializar.

6. Democratização

O último D em que resultam as tecnologias exponenciais é o de democratização e não à toa. Não era raro ter de ir ao escritório de advocacia para saber do profissional do Direito o que estava acontecendo em um processo. Em tempos atuais, basta digitar o nome em um site de busca que, sendo o processo público, já é possível encontrar nos primeiros resultados o número do processo e as últimas movimentações que aconteceram.

Assim, o acesso e o compartilhamento das informações se torna gratuito, rápido, menos trabalhoso e democratizado. A advocacia precisa compreender todo esse processo para saber em que cenário está inserida. Além disso, quais são os passos para adaptar-se, transformar-se e se destacar. O escritório de conseguir compreender e utilizar corretamente as possibilidades existentes, muito provavelmente melhor estará inserido na advocacia 4.0.



Diane Ziemann
Author: Diane Ziemann
É formada em Jornalismo pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Tem experiência em redações e agências do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Já trabalhou como repórter, editora e assessora de imprensa. Atualmente, é produtora de conteúdo da área de Inovação, na Unidade de Justiça da Softplan.

Deixe seu comentário


shares